Todos os meses, a sede das obras sociais da Seara de Luz, localizada no Bairro Liberdade, em Cuiabá, transforma solidariedade em dignidade no prato de dezenas de famílias. Com o apoio de entidades parceiras, a instituição distribui cestas de alimentos e hortifruti a trabalhadores informais que não conseguem suprir as necessidades básicas do lar e a cidadãos que viram sua capacidade laboral interrompida por graves problemas de saúde ou por demandas do cuidado familiar.

A presidente da Seara de Luz, Elione Almeida, destaca que o cenário de vulnerabilidade é agravado por barreiras históricas, como o analfabetismo e a falta de qualificação profissional, que confinam muitos trabalhadores a subempregos e rendas insuficientes.
“A doação de alimentos é um auxílio fundamental. Apesar de uma vida inteira de trabalho, muitas dessas pessoas — mesmo idosas — ainda não conseguiram se aposentar. Para garantir uma renda básica, arcar com medicamentos e complementar a alimentação da família, várias ainda precisam fazer diárias em casas de família. Nesse cenário, a cesta de alimentos garante a segurança alimentar dessas famílias por 30 dias”, pontua a presidente.
Marcas de uma vida de trabalho e a barreira da saúde
A realidade descrita pela presidência traduz a trajetória do pedreiro Hélio Soares dos Santos, de 60 anos. Após um acidente de trabalho que resultou em uma fratura na perna e diante do agravamento de um quadro de gota crônica, ele viu sua renda ser reduzida a um benefício previdenciário de um salário mínimo, insuficiente para sustentar os quatro filhos.

“A cesta básica para mim representa uma bênção, uma maravilha. Se não fosse por ela, eu não sei o que seria. A gente convive com um salário abençoado, mas que não é suficiente para nos manter. Como não estou mais apto ao trabalho, dependo desse benefício. A cesta mantém a minha despensa e garante o pão de cada dia das minhas crianças”, relata o assistido.
História semelhante vive a voluntária Joelma Gomes da Silva Ribeiro, de 57 anos. Após décadas atuando como empregada doméstica, copeira e faxineira, precisou interromper as atividades devido a complicações decorrentes de diabetes e hipertensão arterial. Morando com o esposo e os filhos, a única renda fixa da casa de cinco integrantes é o salário de R$ 1.600,00 do marido.

“Com esse valor não dá para pagar água, luz e ainda fazer a feira. Quando passei a frequentar o Seara e a receber a cesta básica, tudo mudou na minha vida. Se não fosse o alimento e as verduras doadas aqui, eu não sei o que seria da gente”, afirma Joelma.
O alívio no orçamento familiar e a dignidade restabelecida
Para quem perdeu a capacidade física de atuar no mercado formal e não conquistou a aposentadoria, a doação significa a sobrevivência. Luiz Pereira da Silva, de 62 anos, sofreu uma lesão incapacitante na coluna enquanto empilhava materiais em uma fábrica de blocos. Sem conseguir o benefício da aposentadoria, sobrevive com o compartilhamento da renda dos netos e auxílio eventual de terceiros.

“A gente depende da cesta. O dinheirinho que sobra a gente usa para comprar uma carne, e a verdura já levamos daqui da Seara. Se eu tivesse que comprar tudo isso, sairia muito mais caro e não sobraria dinheiro para nada”, explica Luiz.
Além de garantir a nutrição, o auxílio prestado libera recursos financeiros para tratamentos médicos essenciais. Marina Rodrigues de Andrade, de 58 anos, ex-diarista e cozinheira, é assistida pela casa há seis anos. Ela assumiu a criação do bisneto de seis anos, portador de necessidades especiais de saúde que exigem alimentação e medicação de alto custo.

“A cesta básica é a nossa salvação. O dinheiro que eu gastaria com esses alimentos é o valor que uso para comprar os remédios do meu bisneto, além do leite especial e do suplemento. Esta casa me recebeu de braços abertos nos momentos mais difíceis da minha vida, quando parecia que todas as portas estavam fechadas”, desabafa Marina.
Transformação social contínua

A presidente da Seara de Luz, Elione Almeida, ressalta, que a transformação social acontece com um conjunto de ações, com a participação de toda social. “A gratidão é imensa para todos os que contribuem para aliviar a dor do outro. Mostramos apenas quatro assistidos nesta matéria, mas o número é bem maior daqueles que necessitam do amparo de uma cesta básica. Não representa só o alimento, mais a dignidade de viver”, disse emocionada.
Com 26 anos de atuação comunitária em Cuiabá, as obras sociais da Seara de Luz não se limitam ao combate emergencial da fome. Paralelamente às doações mensais de insumos e hortifruti, a instituição oferece cursos de capacitação e formações profissionais, buscando criar pontes para que as famílias assistidas conquistem a autonomia financeira e a inserção no mercado de trabalho.





