Seara de Luz inicia programação do Mês da Consciência Negra com palestra sobre Educação e Comunicação Antirracista

Com a presença de mais de 200 pessoas no salão Jesus de Nazaré, a pesquisadora Julianne Caju abriu o ciclo de eventos reflexivos que se estenderá ao longo de todo o mês de novembro na instituição.
A sociedade quer mais igualdade e equidade

A Seara de Luz, em sua sede das obras sociais localizadas no bairro Liberdade, na periferia de Cuiabá, deu início no último sábado (07) à programação especial alusiva ao Mês da Consciência Negra. O evento de abertura reuniu um público de mais de 200 pessoas no salão Jesus de Nazaré para a palestra “Educação e Comunicação Antirracista: por uma sociedade com mais igualdade e equidade”, ministrada pela jornalista, professora e pesquisadora Julianne Caju, servidora da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação (SECITECI).

A iniciativa reafirma o compromisso histórico da instituição filantrópica com a promoção da igualdade racial, o combate ao preconceito e o fortalecimento de ações transformadoras no seio da comunidade.

“Temos avanços quando o assunto é igualdade e equidade, mas não podemos nos iludir”. Palavras da pesquisadora Julianne Caju.

Retrato demográfico e resgate histórico

Recebida com entusiasmo pela plateia, Caju trouxe dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para contextualizar a urgência da pauta antirracista. A pesquisadora ressaltou que 56,1% da população brasileira é composta por pessoas negras (soma de pretos e pardos). No cenário estadual, o percentual é ainda mais expressivo: em Mato Grosso, 65% da população se autodeclara preta ou parda.

Durante a exposição, a palestrante fez uma análise minuciosa sobre as leis racistas que marcaram a história do país, sublinhando a dimensão temporal do impacto da escravidão. Considerando o intervalo médio de 27,5 anos por geração, Caju destacou que se passaram cerca de 387 anos entre a chegada do primeiro navio negreiro, em 1501, e a assinatura da Lei Áurea, em 1888.

“Cerca de 14 gerações foram escravizadas, tiveram seus direitos humanos sucumbidos, toda sua história silenciada e negada. Quantos anos estamos ‘libertos’?”, indagou a jornalista, provocando profunda reflexão no público presente.

a jornalista foi acolhida com carinho pelos participantes

Desafios contemporâneos e acesso à informação

Questionada sobre a viabilidade de se debater igualdade e equidade na atual realidade social do Brasil, Julianne Caju ponderou que o cenário contemporâneo oferece avanços importantes no acesso à informação, mas exige vigilância crítica constante diante das desigualdades estruturais.

“Dá para falar que nós estamos tendo mais acesso a informações. E quando temos mais acesso a informações que nos foram roubadas — não que elas não existissem, pois sempre existiram sobre a importância de se ter essa equidade e igualdade —, passamos a ter outras perspectivas para se pensar. Porém, não podemos nos iludir, porque o índice de casos de racismo ainda é gritante e ainda não temos uma representatividade de fato de quem decide as coisas no nosso país, de quem ocupa os lugares de poder. A representatividade ainda não acontece de uma maneira equânime”, alertou.

Nayde Leão, fala do propósito das atividades alusivas à Consciência Negra

Programação cultural e valorização da identidade

A organização do ciclo de debates e vivências culturais está a cargo de uma comissão de voluntários da instituição. Neyde Leão, trabalhadora voluntária da Seara de Luz, explicou a importância de levar a reflexão sobre a Consciência Negra diretamente para a comunidade atendida no bairro Liberdade.

“O foco principal foi a valorização da cultura negra. Iniciamos hoje com essa palestra da Juliana Caju, que é pesquisadora, jornalista e funcionária da SECITECI. Vamos ter ainda mais dois eventos. No dia 21 de novembro, teremos o Slam de Poesia, que é uma batalha de poesias faladas que engloba principalmente as pessoas da periferia — os jovens da periferia —, trazendo a realidade da vida periférica, as dores, o sofrimento, as violências que sofrem e a pobreza. A proposta visa trazer os jovens mais para a cultura, vai despertar o interesse deles e também valorizá-los em termos de ser negro, que é o que a gente está buscando mais”, ressaltou Neyde.

A programação alusiva ao mês da Consciência Negra na Seara de Luz encerra-se no dia 28 de novembro com uma sessão de cinema sob a mediação de Juliana Segóvia, cineasta cuiabana especializada em cinema negro e indígena. A atividade contará com a exibição de duas produções audiovisuais — uma mato-grossense e outra nacional — focadas na temática da negritude.

Serviço:

Programação do Mês da Consciência Negra na Seara de Luz

  • 21 de novembro: Slam de Poesia (Batalha de poesia falada com jovens da periferia)
  • 28 de novembro: Exibição de filmes e debate com Juliana Segóvia
  • Local: Obras Sociais da Seara de Luz — Bairro Liberdade, Cuiabá (MT)