SEARA DE LUZ MOBILIZA COMUNIDADE NO ENFRENTAMENTO AO ABUSO E À EXPLORAÇÃO SEXUAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES

Em parceria com o TRT-MT, instituição inicia série de rodas de conversa para conscientizar famílias e proteger o público infantojuvenil; dados nacionais apontam que um estupro ocorre a cada 6 ou 8 minutos no Brasil, a maioria dentro de casa.
Roda de Conversa franca e acolhedora com crianças e adolescentes, realizada pelas voluntárias, a magistrada Leda e Juliana Vasquez, servidora do TRT

Com o objetivo de romper o silêncio e fortalecer a rede de proteção infantojuvenil, a Seara de Luz, localizada no bairro Liberdade, em Cuiabá, deu início a uma importante ação de conscientização. No último sábado, dia 30 de maio, a instituição abriu suas portas para uma série de rodas de conversa alinhadas à campanha nacional “Faça Bonito”. A iniciativa, que conta com a liderança da Justiça do Trabalho, busca alertar a comunidade sobre a gravidade do abuso e da exploração sexual contra crianças e adolescentes, promovendo o debate franco tanto com os jovens quanto com os adultos.

Os números que motivam a mobilização são alarmantes. No Brasil, o abuso e a violência sexual configuram uma das realidades mais graves de violação dos direitos humanos. De acordo com dados monitorados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (Anuário Brasileiro de Segurança Pública) e pelo Ministério da Saúde (através do Sistema de Informação de Agravos de Notificação – SINAN), as estatísticas de segurança pública indicam que ocorre um estupro a cada 6 a 8 minutos no país, registrando anualmente de 60 mil a 70 mil casos de violência sexual. O sistema de saúde, por sua vez, chegou a registrar mais de 200 mil notificações de violência sexual contra a população infantojuvenil em um único ano.

O perigo maior, contudo, está dentro de casa: mais de 80% dos casos ocorrem dentro da própria residência da vítima ou do agressor. Em cerca de 85% dos registros, o autor é conhecido da criança ou adolescente. Os principais agressores identificados são familiares diretos (pais, padrastos, tios, avôs) ou pessoas com forte vínculo de convivência, como vizinhos e amigos da família.

Leda Borges, fala das responsabilidade e direitos com as crianças, ressaltando que “a criança nunca tem culpa”

O Dever Coletivo da Proteção

A abertura do ciclo de palestras foi conduzida pela Juíza do Trabalho do TRT/MT, Leda Borges de Lima, gestora do PETI (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil e Estímulo à Aprendizagem). A magistrada ressaltou o papel ativo que cada cidadão deve desempenhar para coibir esses crimes.

“A proteção à criança é dever da família, é dever do Estado e é dever da sociedade. Então, eu não posso saber que a filha da minha vizinha, ou o filho do meu vizinho, está sofrendo abuso sexual e ficar quieta”, alertou a juíza.

Leda Borges explicou que a proposta na Seara de Luz é estender essas conversas por todos os sábados, abrangendo todas as turmas da instituição, com uma linguagem simples e voltada pra cada faixa etária. O foco é desmistificar o tema e retirar qualquer peso de culpa das costas das vítimas.

“Queremos ter essas conversas mais francas com as crianças de todas as idades e também com os adultos, para que eles nos ajudem nessa conscientização. As crianças são sempre vítimas. Elas não têm culpa nunca. Muitas vezes, um outro adulto pode pensar que a criança foi quem deu causa”, pontuou a magistrada, que ainda chamou a atenção para as sequelas profundas da violência. “A criança que sofre o abuso se torna triste, cria traumas e bloqueios posteriores para uma vida sexual sadia, com família, com esposo. Muitas vezes, infelizmente, pode até ocasionar um fim mais trágico, como o suicídio. Por ser um assunto tão sério, vamos realizar diversas rodas de conversa aqui.”

A magistrada e voluntária Leda ao lado da presidente da Seara de Luz, Elione Almeida

Fortalecimento e Prevenção na Comunidade

Para a presidente da Seara de Luz, Elione Almeida, a parceria com o Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região (TRT-MT) chega em um momento crucial para orientar as famílias da região, que muitas vezes enfrentam realidades de extrema vulnerabilidade social.

“A campanha Faça Bonito é muito necessária. Vejo que é uma necessidade de a sociedade discutir meios de proteção à criança e ao adolescente, e essa iniciativa do Tribunal Regional do Trabalho, levando à comunidade essa discussão, é muito importante”, avaliou a presidente.

Elione destacou a importância de engajar quem está na linha de frente do cuidado diário. “Realmente temos que discutir o assunto com os pais, avós, tios, tias — pessoas que têm a obrigação direta, muitas vezes aqui na comunidade, de cuidar das suas crianças e dos seus familiares. Muitas vezes a criança termina ficando sozinha em casa e fica muito vulnerável.”

A presidente reforçou o compromisso da instituição em pulverizar o debate para todos os frequentadores do espaço. “Daí o nosso interesse em levar essa discussão a todos os grupos aqui da nossa comunidade, para que a gente possa alertar para a necessidade do trabalho preventivo com relação à criança: não deixá-la tão exposta diante de estranhos e situações de risco e, infelizmente, até mesmo dentro do núcleo familiar.”

Sobre a Campanha Faça Bonito

O Dia Nacional de Enfrentamento ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes é lembrado anualmente em 18 de Maio. A data foi instituída por lei federal em memória ao “Caso Araceli”, crime ocorrido em 1973, no Espírito Santo, que chocou o país quando a menina Araceli Cabrera Crespo, de apenas 8 anos, foi raptada, estuprada e morta.

A campanha “Faça Bonito” mobiliza a sociedade brasileira para prevenir, proteger e denunciar qualquer tipo de violência sexual infantil, destacando a necessidade de uma rede de proteção contínua. O símbolo da campanha — uma flor amarela e laranja — foi escolhido justamente para representar a fragilidade, a necessidade de cuidado da infância e o direito a um florescer seguro.