
Deixar para trás a rotina exaustiva do trabalho diário e vivenciar, pela primeira vez, a experiência de viajar para fora do seu município de origem. Essa foi a realidade vivenciada por Sidnei, de 14 anos, integrante do Grupo Florescer. “É a primeira vez que saio de Cuiabá, não conhecia Chapada dos Guimarães!”, relatou o jovem em um diálogo informal. Assim como Sidnei, grande parte dos 45 participantes que viajaram a pouco mais de 60 quilómetros da capital mato-grossense experienciaram momentos inéditos de lazer, conexão e renovação interior.
Promovido pela instituição Seara de Luz, o 3º Encontro do Projeto Florescer ocorreu nos dias 26 e 27 de setembro de 2026, numa chácara situada a 9 km do centro de Chapada dos Guimarães. O objetivo central do evento foi proporcionar uma “estação de autocuidado” e descanso recompensatório a homens, mulheres e adolescentes voluntários oriundos do Bairro Liberdade e da periferia do entorno — trabalhadores que dedicam o seu quotidiano às ações sociais da entidade.

Um percurso marcado por descobertas e emoção
A jornada teve início às 7h da manhã de sábado, com a partida das vans da sede da Seara de Luz, no Bairro Liberdade. O itinerário incluiu paragens estratégicas no Canto do Rei, na estrada de Chapada — com café da manhã e banho de rio —, além de uma visita ao emblemático Mirante da Chapada.

À chegada à chácara, o clima de comoção tomou conta dos presentes ao verem um painel com fotografias de todos os voluntários do grupo. “Estou chorando de emoção, não esperava encontrar tudo isto para nós”, declarou Dona Lúcia, entre lágrimas. Ao seu lado, Dona Jucelina reforçou o sentimento de gratidão: “Só Deus mesmo para recompensar por tudo o que estão fazendo por nós.”

Nascido num período crítico da história recente — durante a pandemia da Covid-19 —, o Projeto Florescer consolidou-se como um espaço de pertencimento e edificação comunitária. O grupo mobiliza moradores periféricos que responderam ao chamado de construção de uma sociedade mais humana, promovendo também a agregação de valor financeiro aos seus integrantes através do trabalho cooperativo.
Círculo de Construção de Paz: curando feridas invisíveis

Leda Borges no Círculo de Construção de Paz
A programação da tarde de sábado reservou momentos de profunda reflexão. Após a apresentação musical da cantora Josi Grolli e do Carlos, foi realizada a dinâmica da vivência do Círculo de Construção de Paz, coordenada e organizado pela professora Mestra Jane Hir. Foram divididos em duas turmas, conduzidas pela Jane Hir e pela juíza do trabalho do TRT/MT e voluntária, Leda Borges de Lima.

A dinâmica permitiu a emersão de memórias, traumas, anseios e desabafos reprimidos. A Professora Jane Hir explicou o fundamento técnico e terapêutico da abordagem:
“Isso realmente é um dos principais objetivos do Círculo de Construção de Paz. É fazer com que as pessoas se percebam, percebam o que estão sentindo, identifiquem as suas necessidades e, ao expor ao grupo, elas abrem canais de uma nova conexão. O círculo de paz fortalece o grupo, renova a sua crença no propósito que as une e possibilita que elas descubram outros recursos para a comunicação.”

O sábado encerrou-se em clima festivo, com jantar e confraternização musical.

Convivência, arte e reconhecimento ao trabalho voluntário
O domingo começou com um café da manhã reforçado. Enquanto duas costelas assavam lentamente na churrasqueira para serem servidas no almoço, outras atividades eram realizadas. Uma delas, foi realizada a entrega de presentes aos participantes do Grupo Florescer, como forma de agradecimento.

Com quase duas décadas de dedicação às causas sociais da Seara de Luz, a juíza e voluntária Rosi Borba destacou a reciprocidade do trabalho com o grupo Florescer:

“Para mim é realização. Essa energia que a gente recebe aqui é imensa. Aqui a gente não apenas doa, ao contrário, a gente recebe muito. Ver cada alegria, cada sorriso destas mulheres simples, trabalhadoras, humanas, que têm este momento delas e que a gente tem o privilégio de proporcionar… Isto é único na nossa vida. Nós, como trabalhadores da Seara, nos sentimos muito felizes. Passamos o ano inteiro a esperar por este dia. Quando vemos esta alegria que perpassa o grupo inteiro, que humaniza todo o mundo, que traz empatia, o abraço, o carinho e o agradecimento, é compensador. Eu agradeço por todos por estarem aqui e também aos trabalhadores que organizaram tudo isso. Agradeço a cada um que ajudou para que este dia acontecesse.”
Depois dos presentes, foram para um refrescante banho de rio, que amenizou o calor de mais de 40ª. No almoço foi servida a costela, assada em fogo lento, por mais de quatro horas.

As atividades não pararam, sem descanso para ‘sesta’, famosa dormidinha. A professora Miriam Lesbão, despertou novas emoções, com uma atividade lúdica e muitas homenagens. A performance poética, com declamação e canto em homenagem ao grupo florescer foi uma linda mistura de música, poesia, flores e comemoração antecipada, do aniversário da trabalhadora Rosi Borba.
Crescimento comunitário e visão de futuro
Ao analisar os resultados do encontro, a presidente da Seara de Luz, Elione Almeida, comemorou não apenas o êxito da imersão, mas também o crescimento exponencial do projeto, cujo contingente de voluntários praticamente dobrou no último ano.

“Neste encontro nós sentimos que o grupo não só aumentou o número de pessoas — praticamente quase que dobrou —, mas sentimos que foi muito bem aproveitado. Houve vários momentos significativos de aprendizado e oportunidade de convivência em todos os aspectos. Vamos sair daqui mais fortalecidos, fortalecendo cada um individualmente e, nesse fortalecimento individual, fortalecer o trabalho no coletivo.”
Elione atribui a expansão do Florescer ao amadurecimento da própria comunidade:
“Acredito que a comunidade está tomando consciência da importância de estar mais integrada na obra. Essa integração completa-se quando a pessoa vem para dentro da instituição, sentindo a necessidade de participar mais ativamente de tudo o que está a ser feito dentro dos projetos sociais da casa, alinhando o crescimento espiritual e moral nesse contexto de aprendizado.”
O sucesso da terceira edição já deixa legados e certezas para o calendário do próximo ano. Questionada sobre a realização do 4º Encontro do Projeto Florescer, a presidente da instituição assegurou: “Com certeza! A ideia é sempre planear para o ano seguinte. No próximo ano estaremos novamente a reeditá-lo com força total, aprimorando a organização e proporcionando momentos de lazer alinhados a um profundo aprendizado.”







































